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2007-01-24 - 13:33:19
Fonte: Portal Andifes/ Correio Brasiliense - Erika Klingl

Falta até o básico



Pesquisa científica nacional é cada vez mais prejudicada pela falta de infra-estrutura nas universidades. No domingo, UnB ficou sem energia elétrica, causando prejuízos pela perda de material em laboratórios

Fazer ciência no Brasil é difícil. Boa parte das vezes, não há dinheiro, já que o país investe menos de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) na produção científica. Em outras ocasiões, o laboratório e os equipamentos são inadequados, quando não obsoletos. As dificuldades de importação de reagentes, bactérias e células, essenciais para descoberta de cura para doenças, também fazem parte da rotina dos pesquisadores. E quando os cientistas conseguem superar todos os obstáculos e parece que tudo vai funcionar, ainda correm o risco de perder o trabalho por falhas na infra-estrutura das próprias universidades, causadas por anos sem investimentos adequados. “Os professores fazem milagres. Mesmo com inúmeros problemas, 90% da pesquisa produzida no país vem das universidades”, ressalta a professora Tânia Batista, da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Um apagão que deixou a Universidade de Brasília (UnB) sem luz entre a noite de domingo e a madrugada de ontem sintetiza essas barreiras enfrentadas pelos homens de mulheres da ciência no Brasil. O prejuízo foi enorme e praticamente incalculável. Milhares de reais e anos de trabalho e coleta de material se perderam por causa da falta de energia nos refrigeradores e freezers dos laboratórios. A queda de luz foi causada, segundo a Companhia Energética de Brasília (CEB), pelo rompimento de um cabo de alta tensão. Conseqüência de uma rede velha e malconservada. Para piorar, poucos laboratórios têm gerador próprio. E os que têm, não suportam tantas horas sem luz.

Mas a falta de luz não é exclusividade da UnB. Na Universidade Federal do Maranhão |(UFMA), por exemplo, a energia cai, semanalmente, três vezes, em média, porque as fiações são de má qualidade. No Rio, a estadual fluminense sofreu com a falta de luz porque os cortes no orçamento deixaram a universidade em débito com a companhia energética. Já na Universidade Estadual do Piauí, o problema é ainda mais grave. Não há laboratório para pesquisa científica. Nossos trabalhos aqui não passam da produção didática para alunos da licenciatura, lamenta o químico Nouga Batista.

O fato de a universidade estar em férias escolares não diminui os danos. “Na UnB não se faz só ensino. Ciência e pesquisa não tiram recesso. Ao contrário, sem a obrigação das aulas há mais espaço para o trabalho em laboratório”, afirma o vice-diretor do Instituto de Biologia da UnB, Jader Marinho.

Isopor

Depois de 15 horas de apagão, a imagem mais comum na maior universidade do Centro-Oeste — apontada como a terceira melhor do país — era de pessoas andando pelos corredores com caixas térmicas nas mãos. O professor Fernando Fortes, do laboratório de Biofísica, correu para a UnB quando ficou sabendo da falta de luz. “Aqui no isopor tem mais de R$ 2 mil em enzimas. Não posso correr o risco de perdê-las porque são importadas e demoraram muito para chegar ao laboratório”, reclama.

Às vezes, a importação de material estrangeiro pode superar os dois anos por causa da burocracia. A aluna da graduação Natiela Beatriz de Oliveira, 20 anos, era outra que estava com isopor em mãos. Ela pesquisa a presença de toxinas na carne dos peixes do Lago Paranoá. “Minha mãe não gosta que eu encha o congelador de casa com os peixes, mas é pelo bem da pesquisa”, resume.

A preocupação da jovem cientista só não foi mais impressionante do que a de duas alunas do Laboratório de Toxinologia. Ambas passaram boa parte da tarde de ontem alimentando os escorpiões à luz de vela. “Eles não podem ficar sem comida porque o estresse e a fome interferem no ciclo de produção de toxinas”, explica Edelyn Cristina, 24 anos, aluna do mestrado de biologia. “Estamos aqui, mas a rotina dos bichos já foi alterada. Com o laboratório escuro, eles não terão sensação do dia e não produzirão as toxinas como em um dia normal”, explica Thalita Soares, 23 anos.

Corriqueiro

“Não estamos pedindo nada de excepcional, só teto, água e luz. O resto a gente corre atrás e consegue por fora”, afirma o professor de bioquímica médica da UnB, Marcelo Hermes-Lima, co-editor do periódico canadense Comparative Biochemistry Physiology. “O problema é que não podemos contar nem com isso.” Os problemas estruturais na UnB, principalmente ligados à falta de energia, não são novidade na instituição.

Desde o feriado do Natal, Marcelo perdeu mais de R$ 100 mil em matéria prima para suas pesquisas. Na noite de 23 de dezembro, depois de vários picos de luz, o freezer do laboratório do Módulo 3 do Instituto Central de Ciências (ICC) queimou. Quando o pesquisador voltou de viagem, teve que jogar fora as amostras de animais coletados na Floresta Amazônica, Pantanal, além de reagentes pagos com recursos da Suécia. Todo o material precisava de temperaturas baixíssimas para manter as propriedades adequadas para a pesquisa. Na última segunda-feira, Marcelo teve que abrir espaço na geladeira às pressas. Colegas e estudantes levaram material de trabalho para a casa dele na tentativa de driblar a falta de luz na UnB.

Em entrevista ao Correioweb, o reitor da UnB, Timothy Mulholland, acusou a CEB de não resolver os problemas com a rapidez necessária. “Temos que capacitar a nossa mão-de-obra para trabalhar com redes de alta tensão. Não podemos depender de terceiros. A CEB vem aqui no campus e não resolve e ainda fica de remi-remi”, afirma. De acordo com o reitor, não há previsão de aquisição de geradores. “Isso seria uma rendição”, ressalta.

O número

R$100 mil é o prejuízo estimado apenas com a perda de material coletado e que estava acondicionado no laboratório do Módulo 3 do ICC da UnB 

Com ajuda das empresas

Para driblar os desafios ligados à falta de investimentos, boa parte dos pesquisadores brasileiros consegue recursos com a iniciativa privada. A prática, apesar de muitas vezes ser a única saída, é condenada por professores. “Com dinheiro de fundações particulares ou empresas a pesquisa deixa de ser socializada para a comunidade que paga o ensino superior público com seus impostos”, reclama o professor Nouga Batista, da Universidade Estadual do Piauí.

De acordo com a professora Tânia Batista da Universidade Federal do Ceará, o Departamento de Informática fez acordo com a empresa de eletrônicos LG para a elaboração do layout de um novo modelo de celular. “Com a falta de dinheiro, os pesquisadores acabam deixando os interesses sociais de lado para atender os interesses de laboratórios investidores”, afirma.

No Rio Grande do Sul, o problema é falta de pessoal. Mais de 250 professores da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), com 10 anos de funcionamento, não são titulares. “Sem dinheiro para concurso, o governo foi contratando docentes substitutos, mas no fim do ano o Ministério Público entrou com uma ação proibindo esse tipo de regime. Corremos risco de não ter aula no primeiro semestre”, alerta o professor Fernando Molinos. A governadora Yeda Crusius anunciou um concurso para contratar 65 docentes.

De acordo com o presidente do Sindicato Nacional dos Docentes de Instituições de Ensino Superior (Andes), Paulo Rizzo, as universidades já começam o ano com dívidas, sacrificado os investimentos em pesquisa. “Os governos muitas vezes seguram os repasses até o fim do ano e, com isso, as instituições acumulam atrasos e dívidas”, afirma.

O Ministério da Educação aposta na aprovação da Reforma Universitária, que tramita no Congresso desde o ano passado, para diminuir a crise. A proposta determina a aplicação na educação superior de nunca menos de 75% da receita constitucionalmente vinculada à manutenção e ao desenvolvimento do ensino, por um prazo de 10 anos, tendo em vista as metas do Plano Nacional de Educação (PNE). Os 75% sairão do mínimo de 18% da receita de impostos que a União tem que investir na educação. No entanto, o MEC, além dos 25% restantes da vinculação constitucional, conta com outras fontes de recursos, como o Fundo da Pobreza e receitas próprias das instituições de ensino. (EK) 

 
 
 
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